domingo, 10 de fevereiro de 2019

Os tempos do homem


As revoluções culturais procuraram desmontar a ideia predominante da divindade a governar o universo. Começavam assim as eras que trouxeram a prevalência das ciências, da política, do conhecimento e do progresso tecnológico. O homem no centro do mundo. Deus ausente, distante. Ou morto como queria Nietzsche. Chegamos ao tempo da pós-modernidade que, segundo Georges Benko, “valoriza o relativismo e a pluralidade cultural, cuja propensão é se deixar dominar pela imaginação das mídias eletrônicas e das telecomunicações; falência das metanarrativas emancipadoras como liberdade, igualdade e fraternidade; mudanças dos sistemas produtivos e crise do trabalho, eclipse da historicidade, e onipresença da cultura narcisista de massa. Predomínio do instantâneo, da perda de fronteiras, do efêmero, do fragmentário, do descontínuo. Mudam-se valores para o novo, o transitório, o efêmero, o fugidio, o fugaz, onde tudo é descartável, criando um mundo caótico. A publicidade manipula desejos, promove o individualismo, a sedução, cria novas imagens e signos....”

Em verdade, num resumo, essas novas ordens falharam com relação ao ser humano moral, aumentando a iniquidade no planeta. As ciências humanas ofereceram novas opções em superação ao “ópio espiritual” que existia há milênios nas sociedades. Uma nova proposta de sublimação para a “redenção” do homem angustiado. Houve assim o esvaziamento da transcendência e da ética quando se instituiu a negação de DEUS. O homem agora rejeita a profundidade de si mesmo, que o fazia buscar a sua própria essência e a origem do mundo. Emancipou-se diante das narrativas históricas e divaga por teorias mirabolantes e experiências superficiais, ficando perdido entre tantos conhecimentos inócuos e a saudade do velho homem. Enquanto ele mais exalta a si, mais se esvai de sentido e se decepciona consigo mesmo. Quanto mais conhecimento tem, mais percebe a suas limitações, sua finitude e sua insignificância em si mesmo. Esse homem que agora procura um deus tecnológico para reger o mundo, capaz de lhe fornecer segurança contra os fenômenos naturais, proteção contra as pragas da lavoura, defesa contra as doenças e uma vida longa em verdade constituiu a si mesmo um deus criador.

E não conseguiu mudar nada ao seu redor. Ao contrário, a degradação global e a desagregação social aumentaram, as mazelas mudaram de nome, de locais e de grupos. A tecnologia nunca o satisfará plenamente, pois ela não é a sua pessoa, ela é um ser separado, fragmentado e dependente do seu criador. Ela não é e nem o faz onipotente, onisciente e onipresente, como o deus que ele queria ser ou fabricar. Para o homem, o início e o fim em si mesmo é algo frustrante. As suas limitações, isto é, a sua capacidade de interagir com os mistérios sem respostas e os fenômenos, ainda que com toda a sua tecnologia, é frustrante. O indivíduo é insignificante perante o território espacial, o tempo e a história. A sublimação que o homem procura não está nele mesmo. Toda construção precisa de uma base permanente, nunca transitória como é a pessoa humana.   Todos os projetos, que antes serviam para a realização espiritual, ética, moral, social deram lugar ao interesse pelo sucesso estritamente pessoal. Assim, o mundo não mudou para melhor. O vazio existencial não pode ser preenchido com as exteriores conquistas humanas.

Alberto Magalhães, autor.